Por: Airton Noé A. da Silveira. – Eng. ambiental
23/12/24
No Japão existe uma empresa que utiliza resíduos da produção de alimentos destinados para consumo humano, transformando estes em ração animal.
O Centro de Ecologia Alimentar do Japão, é uma empresa fundada por Koichi Takahashi, e sua principal atividade se baseia em transformar restos de alimentos humanos em ração para porcos.
A ração animal produzida na empresa de Takahashi, passa por processos de fermentação na sua criação e o produto final apresenta um alto valor nutricional.
Conforme entrevista da BBC, Takahashi possui formação em veterinária, e buscou parcerias com o governo do Japão e universidades para desenvolver uma ração líquida destinada para alimentação de porcos, utilizando um processo de fermentação láctica, que deixa este alimento com o pH de 4,0, que impede a sobrevivência de bactérias neste produto.
Desta forma, o produto pode ser armazenado sem refrigeração, obedecendo uma validade de até 10 dias.
Ao produzir esta ração utilizando os restos de alimentos, a empresa de Takahashi auxilia na reciclagem de alimentos e reduz também o desperdício.
A ração de Takahashi abastece fazendas de criação de porcos no Japão, e assim oferece um ciclo de economia circular no país, reduzindo a grande dependência de rações importadas que ocorrem por lá.
Em função de dimensões territoriais e seu relevo montanhoso, o Japão tem certa dificuldade para manter a sua autossuficiência alimentar, o que força a importar aproximadamente dois terços dos alimentos consumidos e cerca de 75% de ração animal.
Mesmo com a dificuldade de geração local da quantidade necessária, no Japão há uma proporção de descarte de cerca de 28,4 milhões de toneladas de alimentos anualmente, e boa parte destes ainda apresenta condições de consumo.
Em função da importação de alimentos, o custo para aquisição é bem maior se comparado com outros países que conseguem se abastecer internamente da maior parte necessária para consumo.
No Japão também há impostos que ajudam a cobrir os gastos para incinerar seus resíduos, que giram em torno de R$ 30,4 bilhões anualmente.

Área de processamento do centro de reciclagem de comida no Japão.
Fonte: Rachel Nuwer – BBC
Em 2022 – o último ano com dados disponíveis –, a China aparecia como a maior emissora de CO2, seguida por Estados Unidos, Índia, Rússia e Japão.
Fonte: WRI Brasil
Em 1998, o governo do Japão lançou um projeto voltado a buscar soluções ligadas à transformação de recursos alimentares para destinação como ração animal, e neste momento, Takahashi aproveitou para desenvolver a solução da ração para porcos.
A empresa de Takahashi recebe cerca de 40 toneladas de resíduos diariamente, que são inspecionados e selecionados manualmente antes do processamento, e também passam por detectores de metais.
Em função da variação da composição dos resíduos alimentares gerados nas fontes, e do alto teor de água nestes, isso oferece condições favoráveis à degradação e perda de qualidade dos restos de alimentos.
Esse é um dos motivos que impossibilita a destinação direta de resíduos alimentares em grandes proporções diretamente para grandes fazendas, que nem sempre estão perto dos pontos geradores.
A ração gerada a partir de resíduos, chega a gerar 70% menos emissões de gases do efeito estufa, se comparado com quantidades proporcionais de ração importada, segundo Takahashi.
O Japão tem uma relação especial com as técnicas de fermentação. Evidências arqueológicas indicam que as pessoas começaram a fermentar pequenas frutas no território japonês no início do período Jomon, cerca de 5 mil anos atrás.
Hoje em dia, alimentos, bebidas e condimentos fermentados ocupam posição central na cultura alimentar japonesa. O país chega a ter seus próprios sommeliers de fermentação credenciados.
Fonte: Rachel Nuwer – BBC

Lotes de ração que podem ser manipulados conforme a necessidade dos criadores.
Fonte: Rachel Nuwer – BBC
Localizado em Sagamihara, que é uma cidade da prefeitura de Kanagawa, o centro de reciclagem de alimentos também recebe muitos estudantes do ensino fundamental todos os anos, para conhecer mais sobre a reciclagem de alimentos que vêm de vários supermercados, lojas de conveniência e indústrias.
A perda estimada que ocorre no centro de reciclagem gira em torno de 3% a 5% do produto, segundo o fundador.
O processo de fabricação da ração utilizando os alimentos, gera um produto líquido em função da matéria-prima composta por cerca de 80% de água, posteriormente esterilizada, para reduzir bactérias patogênicas.
Dan Kawakami é dono da Fazenda Azumino, e é cliente de Takahashi desde 2006, e segundo o criador de porcos, a carne dos animais tem melhor qualidade.
Segundo Kawakami, além da melhor qualidade da carne, o uso da ração sustentável também é muito interessante em função do custo mais competitivo, e carrega o diferencial de carne sustentável que é um diferencial de vendas.
Fontes: Rachel Nuwer – BBC / Pablo Nogueira – UOL / WRI Brasil
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